A estranha
Um
dia qualquer. Um lugar qualquer. Onde estou? Não sei. Sigo andando por ai. Mais
um ônibus, uma carona, uma viagem. Do meu lado uma estranha. A estranha.
Sentada ao meu lado segue seu caminho. Dividimos apenas o mesmo banco. Não há
nada em comum. Ou há? Talvez nosso destino. Penso. O que será que ela pensa?
Sinto. O que será que ela sente? O tempo faz com que os bancos nessas longas
viagens encolham. Nossos braços nus se encostam e eu sinto sua pele: macia,
fria e sedutora. O que será que pensa? Talvez nem ligue para o que esteja
acontecendo enquanto os pensamentos em minha cabeça se retorcem, entrelaçam e
me apertam. Olho para o seu rosto. Vejo de perfil a face da sedução. Nada
precisa ser falado para aqueles que se apaixonam todos os dias por rostos desconhecidos.
Um primeiro olhar que pode ser o ultimo consegue encantar. Disfarço em vão.
Penso nas outras coisas. Que coisas? Como a vida é. Tudo pode mudar. Um
"Oi" faria com que uma conversa começasse. Talvez não. Melhor não. A
conversa pode na verdade nunca começar. Ela talvez se assustaria e sairia
daqui. Melhor esquecer. Olho para fora. Que bonita são as arvores. Elas são
fortes e apontam para o céu enquanto crescem. Não temem nem pensam que não vão
conseguir. Só olham e vão, milímetro por milímetro, conquistando a distância
quase que infinita entre elas e o azul celestial. Eu deveria ser uma arvore...
Olharia para a garota e tentaria alcança-la. Centímetro por centímetro. Sou um
homem, posso andar dez vezes mais rápido que essas árvores lentas! Será? Lentas
porém não covardes. Isso é, sou covarde. As arvores em seu caminho ainda
encostam umas nas outras por anos, ou por toda a sua vida e nunca mais
desencostam. Deveria fazer isso com essa estranha! Melhor não, a viagem não vai
durar toda minha vida! Um susto me trás de volta. Ela se moveu. Encostou um
pouco mais em mim, sinto agora seu ombro e seu braço. Estou apaixonado, pior,
eu amo essa mulher! Como posso ser tão tolo e achar que o amor vem assim de um
toque? Certas pessoas não podem ser arvores! Covarde! Devia comentar que a pele
dela é macia... Esse seria o pior comentário já feito em uma viagem por essas
bandas. Eu provavelmente ganharia um prêmio. Melhor ficar quieto. Calem-se
pensamentos! Calem-se... Fiquem ai, não fiquem, não... Assim como escrevo, meus
pensamentos hesitam. Param e continuam. Mais uma hora foi embora e eu não fiz
nada. A pior tortura do covarde e saber que o sucesso pode estar a apenas um
passo. Passo que ele não tem coragem de dar. Ouço murmúrios vindos do meu lado.
Não olho para não deixa-la constrangida. Que amante é esse que constrange a
amada? Sou um covarde mas sou educado. Disfarço e olho para o lado. Ela dormiu
como um anjo. Consigo agora contemplar sua beleza sem o risco de ser
descoberto. como é lindo o desenho dos seus lábios, cada curva de seu rosto,
seu cabelo voando ao vento. Horas se passam sem eu notar. A percepção do tempo
e o amor são escolhas binárias. Ou um, ou outro. Quem ama não vê o tempo passar
enquanto esta com a amada e acha que um segundo longe dela é uma eternidade.
Loucura. Loucura como as árvores, quão inocentes são ao acharem que um dia
alcançaram seu objetivo? Deixa pra lá. Vou continuar essa viagem calado.
Observo mais algumas árvores, um sorriso me escapa do lábio. Ela acordou e
talvez tenha percebido. É, ela percebeu. Subitamente se vira, me beija com uma
força que faz com que meus lábios doam, levanta-se e sai. Cheguei ao ponto
final. Ela também.


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